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«É vital dar alento ao que é nobre nos outros» | © DR+

Entrevista a Pierce Brosnan: «É vital dar alento ao que é nobre nos outros»

11 | 10 | 2017   23.55H
Com o novo “O Estrangeiro”, filme que estreia amanhã nas salsas portuguesas, Pierce Brosnan – eventualmente o melhor Bond de sempre – encarna um papel que o fez regressar à sua Irlanda natal. Eis a entrevista exclusiva!

Pierce Brosnan tem, felizmente, muito sentido de humor para aturar o seu estatuto de actor subestimado. Nunca foi premiado pela Academia e, no entanto, é um transformador capaz de servir qualquer personagem menos previsível.

Já fez muita televisão americana, em início de carreira audiovisual. Já sobreviveu com nobreza aos filmes do 007 e de todos aqueles efeitos especiais.

Já trabalhou com Roman Polanski. E com Tim Burton. Já fez de matador desajeitado e, ao lado de Meryl Streep, de namorado esperançoso cantando ABBA numa ilha grega.

Mas, esta semana, o irlandês de olhos verde-esmeralda está de volta para falar da sua ilha e das correntes políticas que a fazem sangrar. No novo O Estrangeiro apresenta-nos uma figura perturbante que parece ter um pé no terrorismo e o outro na vida civil mais institucional.

Contracena com Jackie Chan mas, como seria de esperar, a fleuma acessível vem toda dele. Com Brosnan, as estrelas parecem estar à mão de semear. Tudo é calmo e profundo, interrompido por uma grande presença física e pelo humor existencial que os irlandeses sempre souberam expor sem piedade.

A dimensão dele é sempre humana. A aura é colossal.

Qual foi, desde sempre, a sua relação com o cinema? Onde cresceu, na província irlandesa, havia cinemas?

Cresci nas margens do rio Boyne, no sul da Irlanda. Já então sentia uma grande ligação com o cinema americano, talvez devido às histórias de cowboys e índios. Cinemas, havia dois. Um deles era o Palace. O outro era o Lyric. Era neles que se fazia o meu consumo regular de cinema. O primeiro filme que vi, se vamos a falar da grande dimensão que o cinema pode ter, foi o The Defiant Ones. Um épico daqueles bem grandes, talvez demasiado grande para o miúdo como eu. De resto, a minha vida era feita num ambiente protetor e reservado, próprio da educação católica que se administrava naquele tempo.

O conflito entre a coroa britânica e o movimento independentista irlandês, comandado pelo IRA, traz para a conversa ideias de pertença, terra, patriotismo. Que relação tem com o lugar da pátria, com o terreno que foi vivido e protegido pelos nossos antepassados? Seria capaz de entrar em conflito para proteger a sua terra?

Não há nada que eu goste mais que a terra. Sentir um pedaço de terreno debaixo dos pés, uma substância poeirenta e granulada, é sempre um indício de segurança e estabilidade. Talvez tenha a ver com o meu sangue irlandês mas, realmente, o lugar e a terra são de grande significado para mim. Julgo que é assim com qualquer pessoa. A terra é o sítio de onde nos brota o trabalho, a produção, a criação. E é da terra que nos surgem os sonhos. Não há nada que se compare a um pedaço de terreno no qual o indivíduo pode erguer a sua obra. A minha esposa, Keely, e eu temos uma pequena fazenda no Hawaii, na ilha de Kawaii. Há 15 anos que andamos para lá a construir, a fazer, a assentar toda uma vida. Tem sido uma fonte de grande alegria ao longo deste tempo todo.

Pensei que morava em Malibu…

Tive, em tempos, uma propriedade em Malibu que ficava na garganta de um ‘canyon’, na parte mais retirada. Até que, um dia, olhas pela janela da cozinha e vês gente a acenar, com papéis na mão. Há em nós uma parte do coração que morre quando estas coisas nos acontecem. Mas, seja como for, o melhor que podemos fazer é esperar que o vizinho não construa uma monstruosidade que nos estrague a vista. É sempre bom ter vizinhos que sejam compreensivos e nos tragam uma energia positiva na vida que levamos.

Quais foram algumas das fases mais difíceis da sua vida, antes de vir para a Califórnia? Refiro-me a experiências que o formaram. Que histórias tem para contar, assim num jantar de amigos?

Meu deus, acho que divulguei tudo que era pessoal nos primeiros anos após a minha chegada. Nessa altura eu era demasiado irlandês. Demasiado confessional. Falava muito. Mas a história é conhecida: o meu pai abandonou-nos quando eu era bebé, fui criado pela minha mãe e por um painel extenso de tios e tias numa casa que também tinha pensão. Sei o que é sentir essa coisa da errância, não ter lugar, a eterna solidão. É daí que me vem muita inspiração para muitas coisas que faço. Felizmente, por causa da arte dramática, tenho podido alimentar a minha família. Mas é negócio caprichoso. Um ator pode ser tido como ideal à segunda e perfeitamente dispensável à terça.

Ainda sobre as suas origens e a sua família: como é que ser pai mudou a sua maneira de estar no mundo?

Ser pai, ter filhos, é certamente a etapa mais conseguida da minha vida. Há um grande orgulho nisso. E no trabalho que fica feito. Tenho agora uma neta. Quase dois anos de idade, daqui a uns dias. Tem sido uma alegria vê-la crescer. É deles que somos feitos. O meu papel é ser o melhor pai que me é possível ser. Isso quer dizer, basicamente, uma coisa muito simples: mimo-os demais. Estrago-os com mimos. Não lhes dou disciplina suficiente. Há momentos em que tropeço e embato no futuro, quando eles andam por perto. Felizmente, tenho a esposa perfeita. Mãe absolutamente brilhante.

Qual é o seu grande sonho, como pai?

Como pai e como homem espero ter feito algo de meritório com a minha vida, algo que os meus filhos entendam. Foi sempre muito importante para mim, por exemplo, que eles aprendessem a lidar com toda as pessoas. Quando o momento do grande reconhecimento chegar - e mesmo que sejamos bons naquilo que nos ocupa profissionalmente - o que interessa no fundo é saber viver com os outros, com a realidade do que nos rodeia. É muito importante saber comunicar com os outros, compreender, dizer, falar. É vital dar alento ao que é nobre nos outros. Não haverá autenticidade na nossa vida até que compreendamos o que é viver a vida que coube a outras pessoas. Temos que tentar ver as coisas pelo prima deles, entrar-lhes na pele, perceber que consciência têm na nossa grande equação comum. Sem isso, qualquer vida é apenas vivida a meia força - em detrimento de nós mesmos e dos filhos que nos seguem.

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