Destak

arte & lazer

«A arte é uma  urgência humana» | © DR+

Entrevista a Helen Mirren: «A arte é uma urgência humana»

11 | 04 | 2018   23.17H
Já desfilou a realeza do seu assombroso talento no teatro, televisão e cinema, mas em nenhum dos casos se pode associar Helen Mirren, dama inglesa, ao género do terrror. Mas eis que chega “A Maldição da Casa Winchester”.

Todos nós sabemos que sua alteza Helen Mirren, a da linhagem russa que foi feita dama do império britânico dada a carrada de talento, não gosta de pegar em histórias que se esqueçam facilmente. No filme A Rainha (2006) deu nobreza a uma figura amaldiçoada pelos acontecimentos e pelos noticiários. Já em Estranha Sedução (1991), a sua Caroline invejava de morte os jovens belos que se passeavam por Veneza. Com Robert Altman, no Gosford Park, ilustrou a repressão humana tal como deve ser exercida numa casa senhorial inglesa. E, claro, na TV, como inspetora da polícia ou na companhia de Peter Greenaway como monstra gulosa num banquete macabro, a senhora já enfrentou todos os medos e desafios da arte dramática.

Hoje aparece no aterrador A Maldição da Casa Winchester na pele de Sarah Winchester, viúva herdeira de uma fortuna feita com a ajuda de pistolas, espingardas e muita violência fácil que, agora, parece vir bater à sua porta. Por trás de um véu negro e de um sotaque americano perfeito, Mirren espelha toda uma nação assombrada pela violência.

Não é todos os dias que faz de viúva sóbria, exilada do mundo. Que descobriu sobre esse estado avançado da vida? Acha, por exemplo, que as pessoas mais velhas têm mais segredos que as outras? Menos?

Acho que deve existir sempre um território de privacidade. Se estamos a falar de uma pessoa que viva em união com outra, não acredito que seja boa ideia partilhar todos os segredos pessoais. É importante manter um determinado grau de privacidade. Talvez a ideia de segredo não seja a mais correta. O que precisamos é de privacidade. É possível, a qualquer momento da vida, estabelecer todo o tipo de relação ideal e maravilhosa com outros indivíduos. Mas isso não impede que a pessoa continue a ter a sua esfera individual. No caso da vida das mulheres no mundo que temos, o que vejo é que a maioria delas se deixa definir pela família, pelos filhos, depois pelos netos, e por aí adiante. Mas, no fundo, somos todos independentes de personalidade e donos da nossa própria identidade.

Há algum local geográfico que gostaria de visitar antes de deixar este mundo?

Nunca fui à Índia. Acho que eles têm um entendimento muito particular sobre esta fase transitória a que chamamos vida. Há na Índia um grande espiritualismo, uma procura constante que tenta harmonizar a nossa existência com a tudo o que nos rodeia neste mundo.

Vamos tentar acabar estas frases. Se eu disser “A Helen Mirren é...”, o que vem a seguir?

Assustadiça. Ando sempre com medo. Claro que, entretanto, já arranjei métodos para lidar com o tormento. Mas é essa a verdade. Sinto-me quase sempre amedrontada. Não deixa de ser ridículo, até porque há outras coisas verdadeiramente aterrorizantes por aí – como é o caso de jornalistas e as perguntas que fazem. Fico sempre “Oh. Meu. Deus. E agora, que vou eu fazer ou dizer?”. É um medo total. Mas tenho consciência de que não pareço assustada. Tanto é assim que andei há tempos a fazer uma campanha para a L’Oréal do Reino Unido, em que tento incutir nos jovens a ideia de que todos temos valor. A campanha quer que os jovens encontrem dentro deles aquilo que é precioso e que mais ninguém domina ou conhece. Queremos dizer que toda a gente se sente melindrada, insegura. É normal. O que eu não gosto, e o que me levanta suspeitas, é quando alguém diz que não tem pontos fracos. Gosto que as pessoas sejam inseguras de uma maneira ou outra. Quem diz que está sempre bem deve ter falta de imaginação.

Qual foi, recentemente, a peça de arte que mais a maravilhou?

Como sabe, tenho uma grande admiração pelas chamadas belas artes, especialmente pela pintura. Se tiver de escolher entre as recentes experiências viscerais que tive, diria que o quadro de Gustav Klimt, usado no meu filme Woman in Gold, apanhou-me de uma maneira bem forte. Quando chegou o momento de fazer aquela cena com o quadro, eu ainda não conhecia o objeto. Foi um esforço deliberado da minha parte. Não queria conhecer o quadro até chegar o momento de reconstruir a cena. Até que, durante a cena, dei uns passos. E lá estava, o quadro. Foi um instante fortíssimo. Reajo muito, muito intensamente quando na presença das artes visuais.

Quando há uma estreia ou tapete vermelho a Helen aparece tão bem vestida, divertida, cheia de classe. Num universo paralelo como o de Hollywood, em que a juventude domina, tal feito não é menor. Que regras segue na seleção da roupa festiva?

Não sigo regras. O que eu gosto é de, por vezes, dar um ar da minha graça. Apresento-me, talvez, um pouco ultrajante. Não demasiado. Só um bocadinho. Visto Dolce & Gabbana, mas só porque é o tipo de corte que me serve. Na alta moda há um número limitado de vestidos que só precisam de uma coisa: que eu me enfie neles e corra o zip. Isso, garanto, não acontece com todas as peças que são postas à minha disposição. Alguns cortes Dolce & Gabbana são fáceis. Portanto, reside aí um dos truques em questões de estreias e outras cerimónias de gala: é importante encontrar um costureiro que imagine e desenhe roupa para o nosso tipo de corpo. Não é preciso que o criador faça roupa só para nós. Mas tem de fazer para o nosso tipo de corpo. Acredite ou não, há criadores que desenham roupa de mulher para que seja usada apenas por mulheres sem seios. Também há designers que fazem roupa que só pode ser usada por mulheres sem anca. Como eu tenho ambas as coisas, procuro alguém que me compreenda.

Que outros elementos acha fundamentais quando tem de se apresentar luxuosa?

Se falamos de roupa em formato de alta-costura, a cor é muito importante. Se a cerimónia é noturna, conforto é fundamental. Acaba por ser invariavelmente a mais longa das noites se não for vestida confortavelmente. Os Óscares, por exemplo, são de noite, mas uma pessoa começa o dia cedo. Tudo muito longo. Se eu estiver com dores, torna tudo impossível. Sim, tenho as minhas pequenas regras.

Voltando à arte, tem uma definição para o que ela é e representa?

A arte é, na minha visão, uma urgência humana, uma resposta, uma necessidade de definir, de redefinir constantemente, de redescobrir a nossa essência – e a do mundo que nos rodeia – como seres humanos.

Comentar Artigo

Enviar a amigo

Nota: os seus dados pessoais servirão apenas para os destinatários o identificarem.