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«A falta de palavras tornou tudo especial» | © DR+

Entrevista a John Krasinski: «A falta de palavras tornou tudo especial»

02 | 05 | 2018   22.43H
O sempre discreto John Krasinski co-escreveu, realizou e protagonizou “Um Lugar Silencioso”, brilhante filme de terror aclamado pela crítica e rei nas bilheteiras. Pormenor importante? É absolutamente proibido fazer barulho...

Qualquer pai ou mãe acaba por sentir um grande medo – o de saber que, mais dia, menos dia, os filhos irão sair de casa e enfrentar o mundo. Vai haver problemas, dificuldades, perigos mortais. Perante um cenário negro, há pais que preferem proteger as crianças. Fecham-nas na rotina segura, criam redomas, evitam que elas ganhem asas. Mas há outros que preferem dar-lhes liberdade, até porque a vida não faz sentido se for inteiramente passada no escuro do medo.

Pois foi com esta premissa simples e fabulosa que John Krasinski, ator discreto que agora virou realizador de "Um Lugar Silencioso", filme de terror muitíssimo eficiente, entrou no panteão dos grandes talentos de Hollywood. O seu conto de horror, feito de sustos e saltos, é sobre uma família que não pode fazer barulho porque a vizinhança foi invadida por monstros horrendos que ouvem tudo.

O filme chegou ao primeiro lugar nas bilheteiras americanas, talvez por ser uma história que tenta resolver um dilema milenar: valerá a pena sobreviver apenas, ou, pelo contrário, é absolutamente vital progredir? Silêncio, que o grande e talentoso John Krasinski vai sussurrar.

Fale-me um pouco da dificuldade que foi, especialmente para um realizador estreante, fazer um filme em que não era possível recorrer à ajuda da linguagem falada. Fácil, difícil ou, simplesmente, aterrador?

Esse foi, realmente, o grande desafio. É verdade que a linguagem falada oferece sempre uma almofada de segurança. A linguagem sonora vocal permite que façamos mudanças constantes à medida que a história vai sendo contada, permite que tenhamos um ritmo narrativo que, mais tarde na sala de montagem, se modela com mais facilidade. Nas filmagens, imaginei eu, iria ser muito difícil coordenar todas estas energias da comunicação. Evidentemente que, com a minha esposa, as coisas correram normalmente. Mas quando as crianças mudas começaram a fazer as cenas, percebi que estava na presença de torrentes emocionais muito fortes sem que houvesse o suporte da palavra. E só aí é que me dei conta de que o grande desafio iria acabar por ser o nosso superpoder dentro da história e ao longo do filme. A falta de palavras tornou tudo mais especial. Havia, naquele espaço de atuação e arte dramática, uma força potente de entendimento.

Como foi representar com a Millie Simonds, a jovem atriz que faz de menina muda?

Nunca me vou esquecer da maneira como ela olhava para mim quando tínhamos de ter uma conversa. Olhava para toda a minha pessoa,o que soa muito poético, e é. Olhava para todo o gesto de mãos, para todo o movimento de sobrancelha, e compreendia. Por vezes o tradutor chegava-se a nós mas ela assinalava apenas. «Não é preciso, já percebi tudo». Ontem à noite, na estreia, apresentei a Millie à minha mãe. Mais uma vez o tradutor se aproximou. Mas a Millie só gesticulou para dizer «Não é preciso, compreendi tudo». Não é que leia os nossos lábios. Lê o corpo todo. Lê a nossa essência. Não há nada mais bonito do que testemunhar algo assim. Captar isso para o cinema acabou por não ser um desafio, mas um grande privilégio.

E como foi isso de trabalhar com a sua esposa?

Como é do conhecimento público, a Emily [Blunt] e eu temos feito questão de construir carreiras distintas uma da outra. Por uma razão muito simples: ela gosta de ver as coisas que eu faço e eu gosto de ver as escolhas dela. Por exemplo, nunca li o guião do filme "Sicário". Ou seja, quando o filme apareceu pude ir vê-lo como um simples membro do público. Claro que já tínhamos falado na possibilidade de trabalharmos juntos mas havia um ponto assente – o facto de sermos um casal na vida real nunca poderia sobrepor-se à trama da história, porque isso não seria justo para o filme. Até que apareceu este guião, que nos pareceu muito diferente daquilo que somos só por causa da natureza extraordinária do drama. Naturalmente, nem tudo é fácil. Logo que percebemos que esta história não seria ensombrada pela relação pessoal, houve conflitos de agendamento. A Emily já estava a filmar o "Mary Poppins". E tínhamos acabado de ter a nossa segunda filha. Havia vontade. Mas, como realizador, achei que não seria justo pedir mais dela. A Emily até começou por me ajudar a escolher outra atriz. Até que, um dia, disse «achas que te sentes suficientemente confortável na realização deste filme para me deixares ler o guião?». Respondi que sim. Lembro-me tão bem. Íamos de avião. Ela começou a ler. Ia a meio e olhou para mim. Pensei, juro, que ela tinha ficado doente e estava mesmo quase a vomitar. Eu até já ia a pegar na bolsinha para enjoos. E ela só disse «Não podes deixar que outra pessoa fique com esta personagem». Respondi: «Não sei do que estás a falar». E ela só disse. «Mais ninguém conseguiria fazer este papel». Foi como se ela me estivesse a pedir em casamento. Basta ver a carreira brilhante dela para perceber que achei aquele voluntarismo dela como se fosse o melhor elogio que já me deram. Os gostos dela são absolutamente impecáveis. Percebi que ela se tinha proposto participar, não para me ajudar na carreira, mas porque se deu conta de que conseguiria fazer este trabalho como ninguém.

No filme, se alguém fala ou faz barulho, se um prato cai, as criaturas horrorosas aparecem e matam toda a gente daquela família. Acabou por se tornar grande fã do silêncio?

Sem qualquer dúvida. Foi durante as filmagens que pudemos perceber pela primeira vez como é que uma floresta soa. Parece uma coisa de ‘hippies’, mas é verdade. Se uma pessoa parar e ouvir os sons de uma floresta, percebe finalmente que há muitas camadas, muitas texturas, muitos níveis. É absolutamente inacreditável. Depois percebo que, nesta idade digital em que passamos a vida a olhar para o ecrã do telemóvel, foi como se tivéssemos evoluído na direção inversa àquela. Deixámos de estar atentos ao que se passa à nossa volta. Há tempos levei a minha filha mais velha para o campo e deitámo-nos na relva. Disse-lhe: «Tens de te lembrar sempre que isto é muito importante». Dias mais tarde veio ter comigo e pediu «papá, podemos voltar ao campo para nos deitarmos na relva?». Só pensei «Que maravilha». O fato de ela só querer ficar a olhar para o céu encheu-me de uma felicidade enorme.

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